Arquivos Catarinenses de Medicina
Uso de psicoestimulantes naturais por estudantes de medicina e seus efeitos na saúde mental: Revisão integrativa da literatura
By Maria Eduarda Neves Andriani, Julia Fronza Roepcke, Laura Vivian Valentim de Moura and 2 others.
Abstract
Introdução e objetivo: O ambiente acadêmico da medicina caracteriza-se por elevada carga horária e pressão constante por desempenho, fatores que comprometem a saúde mental dos estudantes e favorecem a busca por estratégias de aprimoramento cognitivo, como o consumo de psicoestimulantes naturais (cafeína e bebidas energéticas, entre outros). Este estudo teve como objetivo analisar, na literatura científica, a correlação entre o uso dessas substâncias por estudantes de medicina e seus efeitos na saúde mental.Método: Trata-se de revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e qualitativo.A busca foi realizada nas bases PubMed, SciELO e LILACS, no primeiro semestre de 2026, foram usados os descritores: psicoestimulantes naturais, cafeína, guaraná, chá-verde e erva-mate, estudantes de medicina, saúde mental, ansiedade, depressão, fadiga e estresse, por meio de operadores booleanos AND e OR. Foram incluídos artigos publicados entre 2010 e 2025, em português, inglês ou espanhol, com texto completo disponível e relacionados a desfechos de saúde mental em estudantes de medicina. Foram excluídos resumos de eventos, dissertações, teses, estudos duplicados e artigos restritos a psicoestimulantes sintéticos. Dos 87 artigos identificados, 11 foram incluídos após triagem por título, resumo e leitura na íntegra.Resultados: Os estudos revisados apontam associação consistente entre o consumo de psicoestimulantes naturais e alterações na saúde mental de estudantes de medicina, sobretudo entre usuários de doses elevadas. Estudo transversal com 289 estudantes de medicina peruanos encontrou associação significativa entre consumo de bebidas energéticas e sintomas de insônia (p=0,008), com risco 1,78 vez maior entre os consumidores. Em amostra saudita de 305 estudantes, 81,3% relataram consumo de cafeína, sendo 52% em doses elevadas (≥400mg/dia) e 80,6% com efeitos adversos percebidos. Estudo brasileiro com 244 acadêmicos encontrou uso de psicoestimulantes em 57,4% da amostra, com predomínio de cafeína (85%) e bebidas energéticas (65%) entre os usuários, e melhora da concentração (97%) e redução do sono (83%) como efeitos mais percebidos. Estudo correlacional com 800 estudantes de medicina libaneses, com instrumentos validados, identificou associação significativa entre maior consumo de cafeína e níveis mais elevados de estresse acadêmico. Abordagem qualitativa com estudantes de Medicina revelou que tais estratégias, embora percebidas como benéficas ao desempenho, associam-se a aumento do estresse, ansiedade e dependência.Conclusão: Os psicoestimulantes naturais são amplamente utilizados por estudantes de medicina pela percepção de melhora no desempenho acadêmico, mas esta revisão evidencia que, sobretudo em doses elevadas, o consumo também se associa a maiores índices de ansiedade, depressão e dependência. Esse padrão, recorrente entre os diferentes contextos analisados, reforça a relevância do tema para a saúde mental dessa população.



