Arquivos Catarinenses de Medicina
Potencial inibitório de extratos de Cannabis sativa var. 'FedTonic' sobre a α-amilase: evidências in vitro e perspectivas translacionais para o diabetes mellitus tipo 2
By Dieferson Felipe Andrighetti, Rayssa Cavalli, Cristian Soldi and 2 others.
Abstract
Introdução e objetivo: O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é condição crônica de elevado impacto em saúde pública, caracterizado por resistência à insulina e hiperglicemia progressiva. O controle da hiperglicemia pós-prandial constitui alvo terapêutico relevante, e a inibição da α-amilase pancreática — enzima central na digestão de carboidratos — representa estratégia farmacológica estabelecida, exemplificada pela acarbose. Contudo, seus efeitos adversos gastrointestinais limitam a adesão terapêutica. Nesse contexto, compostos bioativos de Cannabis sativa, especialmente canabinoides como o canabidiol (CBD), têm despertado interesse por potenciais efeitos sobre o metabolismo glicídico. Este estudo teve como objetivo avaliar, in vitro, a atividade inibitória de extratos etanólicos de C. sativa var. 'FedTonic' sobre a α-amilase pancreática.Método: Trabalho prospectivo, do tipo experimental. Extratos etanólicos full spectrum foram obtidos de inflorescências de três matrizes da variedade 'FedTonic' por extração a frio em etanol absoluto (−15 °C por 30 minutos), seguida de rotaevaporação. O perfil fitoquímico foi determinado por cromatografia líquida de alta eficiência acoplada à espectrometria de massas sequencial (HPLC-MS/MS), evidenciando um quimiotipo canabidiol-dominante, (CBD; 28,79 ± 0,75%; 289,8 ± 13,03 µg/mg) e baixo teor de tetrahidrocanabinol (THC; 1,4 ± 0,05%; 15,54 ± 0,67 µg/mg). A atividade inibitória sobre a α-amilase pancreática suína (Sigma-Aldrich®) foi avaliada por ensaio espectrofotométrico em faixa de concentração de 0,001 a 10 µg/mL, utilizando acarbose como controle positivo. Os resultados foram expressos em percentual de inibição enzimática e analisados por análise de variância (ANOVA) para medidas repetidas, seguida do teste de Tukey (p<0,05).Resultados: Os extratos demonstraram elevada atividade inibitória em toda a faixa de concentrações avaliada, com percentuais superiores a 70%. A maior inibição foi observada na concentração de 1 µg/mL com cerca de 85% de inibição enzimática, apresentando desempenho comparável ao da acarbose nas condições do ensaio (90%). Mesmo na menor concentração testada (0.001 µg/ml), observou-se aproximadamente 75% de inibição, evidenciando atividade biológica expressiva em baixas concentrações. Esse perfil supera os valores de concentração inibitória mínima de 50% (IC50) reportados na literatura (entre 16,36 e 23,53 µg/ml) para extratos de sementes, folhas e raízes da planta. Essa diferença pode decorrer do uso de inflorescências frescas além de indicar que a preservação de compostos termolábeis pelo método de extração a frio otimizou a potência do fitocomplexo. Ressalva-se que comparações quantitativas demandam cautela devido a disparidades metodológicas. Ademais, a literatura é majoritariamente in vitro e em modelos animais: a ponte translacional para humanos — demonstração de que concentrações inibitórias são atingíveis no lúmen intestinal após administração oral — ainda não foi estabelecida por ensaios clínicos.Conclusão: O extrato de Cannabis sativa var. 'FedTonic', com perfil CBD-dominante e baixo THC, exibiu expressiva atividade inibitória sobre a α-amilase in vitro, inclusive em baixas concentrações. Os resultados sustentam a hipótese de que compostos presentes no extrato podem modular enzimas associadas à hiperglicemia pós-prandial. Contudo, a ausência de evidências clínicas diretas indica a necessidade de estudos em modelos celulares, in vivo e, futuramente, ensaios clínicos para avaliar sua eficácia e segurança.



