Arquivos Catarinenses de Medicina
Manejo clínico da dengue em pacientes em uso de terapia antiplaquetária dupla (dapt): Desafios e estratégias
By Ana Vitória Torrens Alves de Araújo, Manuela Klein, Daniela Peres and 5 others.
Abstract
Introdução: A dengue permanece entre as arboviroses de maior impacto em saúde pública, apresentando desde formas leves até quadros graves, frequentemente associados à trombocitopenia e ao risco hemorrágico. Em contrapartida, pacientes submetidos à intervenção coronária percutânea com implante de stent necessitam de terapia antiplaquetária dupla (DAPT) para prevenir trombose de stent. O manejo desses pacientes quando acometidos por dengue representa um importante desafio terapêutico, agravado pela escassez de ensaios clínicos e diretrizes específicas.Objetivo: Analisar as evidências científicas disponíveis sobre o manejo da DAPT em pacientes que desenvolvem dengue.Metodologia: Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, conduzida na base de dados PubMed. A estratégia de busca empregou descritores Medical Subject Headings (MeSH), combinados pelo operador booleano AND: "Dengue" AND "Stents"; "Dengue" AND "Dual Antiplatelet Therapy"; "Dengue" AND "Platelet Aggregation Inhibitors"; "Dengue" AND "Thrombocytopenia" AND "Antiplatelet Agents"; "Percutaneous Coronary Intervention" AND "Dengue"; e "Dengue" AND "Thrombocytopenia". Foram incluídos estudos publicados entre 2020 e 2026, nos idiomas inglês e português, disponíveis na íntegra, compreendendo relatos de caso, estudos observacionais, revisões e diretrizes pertinentes ao manejo da terapia antiplaquetária em pacientes com dengue. Após remoção de duplicatas, triagem por títulos e resumos e avaliação dos textos completos, cinco estudos atenderam aos critérios de elegibilidade e compuseram a revisão.Resultados: A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda, em pacientes com stent ≥30 dias e contagem plaquetária <30.000/mm³, a suspensão da terapia antiplaquetária, enquanto contagens superiores permitem sua manutenção. Em pacientes com <30 dias de angioplastia, recomenda-se a suspensão da DAPT ou transfusão de plaquetas para manutenção de monoterapia quando a contagem for <30.000/mm³. A efetividade da transfusão profilática depende de fatores imunológicos, reforçando a necessidade de condutas individualizadas. Em relato de caso, paciente com stent farmacológico implantado há seis meses teve a DAPT suspensa após diagnóstico de dengue, sendo reiniciada após recuperação plaquetária, sem sangramento ou angina. Um estudo de coorte retrospectivo não demonstrou aumento de eventos cardiovasculares ou hemorrágicos com a suspensão temporária da DAPT.Conclusão: O manejo da DAPT em pacientes com dengue e stent coronariano permanece um desafio clínico. Até que ensaios clínicos estabeleçam protocolos específicos, a conduta deve ser individualizada, considerando o risco cardiovascular, a gravidade da trombocitopenia e a evolução clínica.



