Arquivos Catarinenses de Medicina
Mio-inositol versus metformina na síndrome dos ovários policísticos: Uma revisão sistemática baseada em evidências
By Beatriz Soldaini Grieco Cabral de Mello, Amanda Kaori Narimatsu, Debora Moreira de Campos and 2 others.
Abstract
Introdução e objetivo: A síndrome dos ovários policísticos (SOP), uma condição hormonal e metabólica associada à resistência insulínica, tem como primeira linha terapêutica a metformina apesar de efeitos gastrointestinais que comprometem a adesão das pacientes. O mio-inositol tem sido proposto como alternativa, com possível eficácia comparável e melhor tolerabilidade. Pergunta PICOST: em mulheres em idade reprodutiva com SOP e resistência insulínica (P), a monoterapia com mio-inositol (I), comparada à metformina (C), apresenta eficácia comparável na sensibilidade à insulina (HOMA-IR), insulina e glicemia de jejum (O), segundo revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados (S) publicadas entre 2019 e 2024 (T)?Método: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, de caráter retrospectivo, baseada na síntese crítica de revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados. A busca foi realizada nas bases PubMed, Embase e Cochrane Library, incluindo publicações de 2019 a 2024, excluindo-se estudos em animais, opiniões, editoriais e publicações sem comparação direta entre os tratamentos. A seleção seguiu fluxo adaptado PRISMA 2020.Resultados: A pergunta foi motivada pelo estudo de caso de paciente de 24 anos com SOP, resistência insulínica e intolerância gastrointestinal à metformina. Da busca inicial (143 artigos), 3 metanálises foram incluídas. Fatima et al. (2023, 8 ECRs, n=1088) não encontraram diferença significativa entre mio-inositol e metformina para insulina de jejum, HOMA-IR e glicemia de jejum. Greff et al. (2023, 24 estudos, n=1691) concluíram que o mio-inositol não foi inferior à metformina para resistência insulínica, com menor ocorrência de efeitos gastrointestinais, atribuindo qualidade de evidência alta ao HOMA-IR. Fitz et al. (2024, 19 estudos, n=2230), ao aplicar o framework RIGID, excluíram 13 estudos com inconsistências metodológicas, reduzindo a qualidade de evidência do HOMA-IR para baixa; o mio-inositol manteve eficácia semelhante à metformina para os parâmetros metabólicos, com menor incidência de eventos gastrointestinais. Diante dessas evidências, optou-se por iniciar o tratamento com mio-inositol e acompanhamento laboratorial.Conclusão: As evidências, apesar de heterogêneas quanto à qualidade metodológica, sugerem que o mio-inositol apresenta eficácia semelhante à metformina na resistência insulínica em mulheres com SOP, com melhor tolerabilidade gastrointestinal, podendo ser alternativa em pacientes com intolerância à metformina. Porém, adentrando o contexto brasileiro da realização da decisão, é importante ressaltar que o mio-inositol não é distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), podendo haver barreiras socioeconômicas que afetem a adesão ao tratamento. A discrepância na qualidade de evidência do HOMA-IR reforça a importância de frameworks de integridade metodológica e situação particular do paciente na decisão clínica.



