Fisioterapia Brasil
Cirurgia colorretal: Fatores associados à recuperação funcional e às complicações pós-operatórias
By Mirella de Oliveira Monteiro, Brenda Lopes Brandão, João Lucas Teixeira Lopes Soares and 1 others.
Abstract
Introdução: A cirurgia colorretal apresenta riscos de complicações pós-operatórias e repercussões funcionais associados a diferentes condições clínicas, musculares e nutricionais. Entre os fatores prognósticos investigados destacam-se sarcopenia, fragilidade, capacidade funcional pré-operatória e comorbidades, enquanto estratégias como pré-habilitação e protocolos de recuperação otimizada buscam melhorar os desfechos cirúrgicos. Entretanto, a heterogeneidade das evidências dificulta a compreensão integrada dessas dimensões. Objetivo: Analisar criticamente as evidências acerca da recuperação funcional e das complicações pós-operatórias em indivíduos submetidos à cirurgia colorretal, distinguindo as associações entre fatores prognósticos e características clínicas pré-operatórias dos efeitos de estratégias perioperatórias, especialmente pré-habilitação e protocolos Enhanced Recovery After Surgery (ERAS). Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de natureza qualitativa e descritiva. A busca inicial foi realizada em 30 de setembro de 2026 nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), considerando publicações em português e inglês, sem restrição temporal. A seleção foi conduzida por dois revisores independentes, mediante triagem de títulos e resumos e avaliação dos textos completos. Foram extraídas informações referentes aos delineamentos, características das populações, fatores prognósticos, intervenções perioperatórias, medidas de associação, estimativas de efeito e desfechos clínicos e funcionais, quando disponíveis. A síntese foi realizada de forma qualitativa, distinguindo evidências prognósticas e intervencionistas. Resultados: Foram identificados 70 registros, sendo 25 no PubMed/MEDLINE, 35 na SciELO e 10 na BVS. Após a exclusão de 20 duplicatas, 50 registros foram submetidos à triagem, dos quais 30 foram avaliados na íntegra. Ao final, 12 estudos compuseram a amostra. A amostra reuniu estudos observacionais, ensaio clínico randomizado, reanálise de dados de ensaio clínico e revisões sistemáticas com meta-análise. A sarcopenia apresentou associação com maior ocorrência de complicações pós-operatórias, morbidade e mortalidade, embora os resultados não tenham sido uniformes para todos os desfechos. A fragilidade também esteve associada a complicações gerais e graves, prolongamento da hospitalização e maior risco de mortalidade em determinadas análises, com heterogeneidade e diferenças na precisão das estimativas. A condição funcional pré-operatória, as comorbidades e o comprometimento nutricional contribuíram para a caracterização da vulnerabilidade cirúrgica. Quanto às intervenções, a pré-habilitação multimodal apresentou redução significativa de complicações graves e médicas em comparação ao cuidado padrão, sem melhora estatisticamente significativa e consistente em todos os indicadores funcionais, particularmente no teste de caminhada de seis minutos. Maior adesão aos protocolos ERAS associou-se à recuperação funcional mais precoce, embora as evidências observacionais não permitam estabelecer causalidade. A heterogeneidade metodológica, a ausência de avaliação crítica estruturada da qualidade dos estudos e a possível sobreposição entre evidências primárias e secundárias limitaram a confiança na síntese. Conclusão: A sarcopenia, a fragilidade e as condições clínicas e funcionais pré-operatórias constituem fatores relevantes para a avaliação prognóstica após cirurgia colorretal, enquanto a pré-habilitação apresenta benefícios sobre determinadas complicações, sem demonstração uniforme de melhora funcional. Os achados reforçam a importância de distinguir associações prognósticas dos efeitos das intervenções e de considerar separadamente os desfechos clínicos e funcionais. A predominância de estudos envolvendo cirurgia oncológica, a heterogeneidade das evidências e as limitações metodológicas restringem a generalização dos resultados, indicando a necessidade de estudos prospectivos e ensaios clínicos com maior padronização e acompanhamento funcional prolongado.



