Zenodo
Diabetes mellitus em cuidados paliativos: quando controlar menos significa cuidar melhor?
By João Moura, Nunes Machado and Josimário João da Silva.
Abstract
Introdução: O manejo do diabetes mellitus em cuidados paliativos impõe um desafio clínico e bioético: metas tradicionalmente orientadas à prevenção de complicações futuras podem perder proporcionalidade diante da redução da expectativa de vida, enquanto hipoglicemia, monitorização frequente e complexidade terapêutica podem ampliar a carga do tratamento. Nesse contexto, desintensificar não significa abandonar o cuidado, mas reconsiderar intervenções conforme benefícios, riscos e objetivos da pessoa. Objetivo: Analisar as evidências sobre individualização e desintensificação do manejo do diabetes mellitus em cuidados paliativos, considerando carga terapêutica, sofrimento, tecnologias e princípios bioéticos aplicados ao cuidado centrado na pessoa. Método: Revisão integrativa da literatura, conduzida segundo o referencial de Whittemore e Knafl e orientada pelas recomendações PRISMA 2020. Foram pesquisadas PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde/LILACS e SciELO, considerando publicações de janeiro de 2000 a setembro de 2026, em português, inglês ou espanhol. Foram incluídos estudos primários envolvendo adultos com diabetes em cuidados paliativos, doença avançada, hospice, fim da vida ou com necessidades paliativas explicitamente investigadas. A qualidade metodológica foi analisada mediante instrumentos do Joanna Briggs Institute adequados aos desenhos dos estudos. Resultados: Foram incluídos 19 estudos primários, caracterizados por heterogeneidade metodológica e predomínio de desenhos observacionais, qualitativos e relatos de caso. A síntese evidenciou cinco eixos: individualização e proporcionalidade do controle glicêmico; hipoglicemia e prevenção de danos; carga terapêutica e assistencial; comunicação, autonomia e integração dos cuidados paliativos; e uso proporcional de tecnologias. Os estudos apontaram ocorrência relevante de hipoglicemia, persistência de monitorização e intervenções próximas à morte, heterogeneidade das condutas e importância das preferências individuais. A evidência comparativa para metas glicêmicas ou estratégias específicas de desintensificação permaneceu limitada. Conclusão: A literatura não sustenta a manutenção automática do controle glicêmico intensivo nem a desintensificação indiscriminada. Controlar menos pode significar cuidar melhor quando a redução da intensidade terapêutica diminui riscos, carga ou sofrimento sem comprometer conforto e prevenção de descompensações sintomáticas. Assim, o manejo deve fundamentar-se na proporcionalidade terapêutica, considerando prognóstico, sintomas, tipo de diabetes, capacidade funcional, preferências e impacto sobre cuidadores. Palavras-chave: Diabetes mellitus; Cuidados paliativos; Bioética clínica



